"A finalidade da educação...é contestar o impacto das experiências do dia-a-dia, enfrentá-las e por fim desafiar as pressões que surgem do ambiente social.Mas será que a educação e os educadores estão à altura da tarefa? Serão eles capazes de resistir à pressão? Conseguirão evitar ser arregimentados pelas mesmas pressões que deveriam confrontar?"

Zygmunt Bauman, 2007


segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

A FILOSOFIA DA ROTINA. Entrevista de Zygmunt Bauman para La Repubblica.

 
Nós conhecemos mais a alegria das coisas duráveis, fruto de trabalho. O grande sociólogo explica como os laços foram substituídos por "conexões". E acrescenta: "Toda relação permanece única: não se pode aprender a querer bem". Desconectar-se é apenas um jogo. Fazer amigos online requer empenho.

A reportagem é de Raffaella De Santis, publicada no jornal La Repubblica, 20-11-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Amar-se e permanecer juntos por toda a vida. Tempos atrás, há algumas gerações, não só era possível, mas também era a norma. Hoje, ao invés, tornou-se uma raridade, uma escolha invejável ou louca, dependendo dos pontos de vista. Sobre esse assunto, Zygmunt Bauman já voltou várias vezes (e também o faz em seu último livro, Cose che abbiamo in comune [Coisas que temos em comum], publicado pela editora Laterza).

Os seus trabalhos são ricos em considerações sobre o modo de viver as relações: hoje estamos expostos a milhares de tentações, e permanecer fiel certamente não é nada óbvio, mas se torna uma maneira para subtrair ao menos os sentimentos da dissipação rápida do consumo. “Amor líquido”, lançado em 2003, partia justamente daí, da nossa dilaceração entre a vontade de provar novas emoções e a necessidade de um amor autêntico.

Eis a entrevista.


O que é que nos leva a procurar sempre novas histórias?

A necessidade de amar e ser amados, em uma contínua busca de satisfação, sem nunca estarmos certos de estarmos suficientemente satisfeitos. O amor líquido é justamente isso: um amor dividido entre o desejo de emoções e o medo do vínculo.

Portanto, estamos condenados a viver relações breves ou à infidelidade...

Ninguém está "condenado". Diante das diversas possibilidades, cabe a nós escolher. Algumas escolhas são mais fáceis e outras mais arriscadas. As escolhas aparentemente menos comprometedoras são mais simples do que as que requerem esforço e sacrifício.

Mas o senhor viveu um amor duradouro, com a sua esposa Janina, que morreu há dois anos.

O amor não é um objeto pré-confeccionado e pronto para o uso. É confiado aos nossos cuidados, precisa de um compromisso constante, ser regenerado, recriado e ressuscitado todo dia. Acredite, o amor satisfaz essa atenção maravilhosamente. Quanto a mim (e espero que também tenha sido assim para Janina), eu posso lhe dizer: assim como o vinho, o sabor do nosso amor melhorou ao longo dos anos.

Hoje, vivemos mais relações ao longo de uma vida. Somos mais livres ou apenas estamos mais amedrontados?

Liberdade e segurança são ambos valores necessários, mas estão em conflito entre si. O preço a pagar por uma maior segurança é uma menor liberdade, e o preço de uma maior liberdade é uma menor segurança. A maior parte das pessoas tenta encontrar um equilíbrio, quase sempre em vão.

Porém, o senhor envelheceu junto com a sua esposa: como vocês enfrentaram o tédio da cotidianidade? Envelhecer juntos está fora de moda?

É a perspectiva do envelhecimento que já está fora de moda, identificada com uma diminuição das possibilidades de escolha e com a ausência de "novidade". Aquela "novidade" que, em uma sociedade de consumidores, foi elevada ao mais alto grau da hierarquia dos valores e considerada como a chave da felicidade. Tendemos a não tolerar a rotina, porque, desde a infância, fomos acostumados a correr atrás de objetos descartáveis, a serem substituídos velozmente. Não conhecemos mais a alegria das coisas duráveis, fruto do esforço e de um trabalho escrupuloso.

Acabamos transformando os sentimentos em mercadorias. Como podemos novamente dar ao outro a sua unicidade?

O mercado farejou na nossa necessidade desesperada de amor a oportunidade de enormes lucros. E nos seduz com a promessa de poder ter tudo sem esforço: satisfação sem trabalho, ganho sem sacrifício, resultados sem esforço, conhecimento sem um processo de aprendizagem. O amor requer tempo e energia. Mas hoje ouvir aqueles que amamos, dedicar o nosso tempo para ajudar o outro nos momentos difíceis, ir ao encontro das suas necessidades e desejos mais do que os nossos tornou-se supérfluo: comprar presentes em uma loja é mais do que suficiente para recompensar a nossa falta de compaixão, amizade, atenção. Mas podemos comprar tudo, menos o amor. Não encontraremos o amor em uma loja. O amor é uma fábrica que trabalha sem descanso, 24 horas por dia e sete dias por semana.


Talvez acumulemos relações para evitar os riscos do amor, como se a "quantidade" nos tornasse imunes à exclusividade dolorosa das relações.

É isso. Quando o que nos circunda se torna incerto, a ilusão de ter muitas "segundas escolhas", que nos recompensem do sofrimento da precariedade, é convidativa. Mover-se de um lugar ao outro (mais promissor, por ainda não ter sido experimentado) parece mais fácil e atraente do que se comprometer em um longo esforço de reparação das imperfeições da habitação atual, para transformá-la em uma verdadeira casa, e não só em um lugar para viver. O "amor exclusivo" quase nunca é isento de dores e problemas – mas a alegria está no esforço comum para superá-los.

Em um mundo cheio de tentações, podemos resistir? E por quê?

Requer-se uma vontade muito forte para resistir. Emmanuel Lévinas falou da "tentação da tentação". É o estado do "ser tentado" que, na realidade, desejamos, não o objeto que a tentação promete nos entregar. Desejamos esse estado, porque é uma abertura na rotina No momento em que somos tentados, parece que que somos livres: já estamos olhando para além da rotina, mas ainda não cedemos à tentação, ainda atingimos o ponto de não retorno. Um instante depois, se cedermos, a liberdade desaparece e é substituída por uma nova rotina. A tentação é uma emboscada em que tendemos a cair alegremente e de bom grado.

Mas o senhor escreve: "Ninguém pode experimentar duas vezes o mesmo amor e a mesma morte". Apaixonamo-nos apenas uma vez na vida?

Não existe uma regra. A questão é que todo amor individual, assim como toda morte, é único. Por essa razão, ninguém pode "aprender a amar", assim como ninguém pode "aprender a morrer". Embora muitos de nós sonhemos em fazer isso e não falte quem tente ensinar cobrando por isso.

Em 1968, se dizia: "Queremos tudo e já". O nosso desejo de satisfação imediata também é filho dessa época?

O ano de 1968 poderia ter sido um ponto de início, mas a nossa dedicação à gratificação instantânea e sem vínculos é o produto do mercado, que soube capitalizar a nossa tendência a viver o presente.

Os "laços humanos" em um mundo que consome tudo são um obstáculo?

Eles foram substituídos pelas "conexões". Enquanto os laços requerem compromisso, "conectar" e "desconectar" é uma brincadeira de criança. No Facebook, podemos ter centenas de amigos movendo um dedo. Fazer amigos offline é mais complicado. O que se ganha em quantidade se perde em qualidade. O que se ganha em facilidade (confundida com liberdade) se perde em segurança.

O senhor e Janina nunca passaram por uma crise?

Como poderia ser de outra forma? Mas, desde o início, decidimos que estar juntos, embora difícil, é incomparavelmente melhor do que a sua alternativa. Uma vez tomada essa decisão, também se olha para a crise conjugal mais terrível como para um desafio a ser enfrentado. O exato oposto da declaração menos arriscada: "Vivamos juntos e vejamos como vai ser...". Nesse caso, mesmo uma incompreensão assume a dimensão de uma catástrofe seguida pela tentação de pôr fim à história, abandonar o objeto defeituoso, buscar satisfação em outro lugar.

O amor de vocês foi à primeira vista?

Sim, eu lhe fiz uma proposta de casamento e, nove dias depois do nosso primeiro encontro, ela aceitou. Mas foi necessário muito mais para fazer com que o nosso amor durasse e para fazê-lo crescer por 62 anos.
 
Fonte:http://www.ihu.unisinos.br/noticias/515813

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Periódico:Cadernos Zygmunt Bauman lança nova edição

 
Capa da revista
                                                                                                                                                                                                  

Cadernos Zygmunt Bauman, periódico semestral, acaba de lançar nova edição. Neste número, diversos artigos procuram articular o pensamento de Bauman com problemas teóricos contemporâneos nas ciências sociais e na educação, enquanto outros, especificamente, buscam desenvolver conceitos do autor polonês.
A revista recebe artigos em fluxo contínuo.
A edição atual pode ser acessada no link:

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

VÍDEO: A Servidão Moderna ("De la Servitude Moderne", França - Colômbia, 2009, 52min - Direção: Jean-François Brient)

Neste magnífico filme francês, de Jean-François Brient (2009), são explorados de forma impactante os efeitos da dominação do capital sobre a vida humana. Diversos cenários são analisados, desde a submissão do trabalhador a uma lógica empresarial perversa, os efeitos da aculturação midiática e da indústria publicitária, até os danos planetários de uma sociedade organizada em torno das mercadorias e do consumismo. Trata-se de uma excelente ferramenta para discussão dos efeitos da liberdade concedida ao capital, tão cara às análises de Zygmunt Bauman, e para reflexões teóricas em torno dos dispositivos socializadores da sociedade de consumo.
Obs: Caso a legenda não apareça imediatamente, clique no ícone legenda na barra inferior da caixa de vídeo do youtube e, em seguida, em adicionar legenda.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

VÍDEO: Homenaje a Zygmunt Bauman en el festival Rototom Sunsplash 2012

No breve vídeo acima, professores espanhóis comentam a importância do pensamento de Zygmunt Bauman para a sociedade contemporânea. Essa breve homenagem foi gravada durante a realização de um Fórum Social, que contou com a presença de Bauman, como parte das atividades do Festival Rototom Sunsplash, em Benicàssim, Espanha. O evento foi realizado entre os dias 16 e 22 de Agosto deste ano.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

VÍDEO - Turistas ou peregrinos? Yves de La Taille, Professor da USP, reflete sobre a sociedade contemporânea a partir de conceitos de Zygmunt Bauman.

Na palestra realizada em 2011, para o Café Filosófico, da Tv Cultura, o psicólogo e pesquisador reflete sobre a produção do sujeito contemporâneo e perpassa questões centrais na obra de Zygmunt Bauman.
Acima, pode ser conferido o vídeo na íntegra do programa.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

O pensador da liquidez: Revista Carta Capital problematiza a educação a partir de Bauman


Por Valter Bracht, Ivan Marcelo Gomes e Felipe Quintão de Almeida, professores da Universidade Federal do Espírito Santo e coautores de Bauman & a Educação (Autêntica) - 13.04.2012 14:58
Apesar da profícua produção intelectual e da atuação na vida pública desde os anos 1950, Zygmunt Bauman somente ganhou notoriedade no cenário sociológico mundial no fim dos anos 1980. No Brasil, seu reconhecimento é ainda mais tardio, fazendo-se aqui notar somente no fim dos 1990. Desde a repentina proliferação de seus escritos no País, o ecletismo característico de sua escrita sociológica tem despertado a atenção de muitos pesquisadores e do público “não profissional”. Apesar de ter se transformado numa espécie de best seller do mercado brasileiro, não houve, por outra via, um crescimento de investigações de maior fôlego de sua obra no País, ao contrário do que acontece no âmbito internacional.
Alguns estudiosos do sociólogo costumam dividir sua obra em três fases: a primeira, marxista, situa-se nos anos 1960 e 1970, quando as discussões sobre o capitalismo e o socialismo orientam suas análises. Nos anos 1980, dedica-se a uma crítica da modernidade e suas utopias/distopias (fase modernista), o que acabou o levando, por um lado, à aproximação com perspectivas que são interpretadas como pós-modernas e, por ou, desencadeou nele o interesse pelo tema da moral. Por fim, há os livros e análises sobre tópicos da modernidade na atualidade (globalização, comunidade, identidade, refugiados, consumo etc.) que compõem, para Tester (2004), sua fase mosaica.
Na transição da segunda para a terceira fase, Bauman evita, em razão das confusões semânticas, o uso da expressão “pós-modernidade”, propondo a metáfora da liquidez como chave de leitura que mais bem permite pensar as questões que acometem os habitantes do atual estágio moderno.
Fábrica da ordemEmbora não tenha escrito extensivamente sobre o tema, o sociólogo também aborda a educação de duas maneiras. Na primeira, como no livro Legisladores e Intérpretes: Sobre a modernidade, a pós-modernidade e os intelectuais, vai demonstrar-se, muito influenciado pela clássica interpretação de Michel Foucault, como a escola foi uma instituição funcional ao estabelecimento da ordem como tarefa da modernidade. Podemos pensar nela como o tempo-espaço em que as ambições legisladoras dos intelectuais modernos e as ambições ordenadoras do Estado se concretizaram sem disfarces.
A educação escolarizada representou um projeto capaz de fazer da formação dos indivíduos exclusiva responsabilidade da sociedade e, em especial, dos governantes. Isso pois é direito e dever do Estado formar seus cidadãos e garantir sua conduta correta, vale dizer, o comportamento na direção do projeto racional e, no caminho, introduzir ordem em uma realidade antes despojada de seus próprios dispositivos de organização. A escola era a sede a partir da qual se universalizavam os valores utilizados para a integração social. Os intelectuais (professores e/ou educadores) eram os únicos capazes de fornecer a receita aos incultos e vulgares do que seria uma vida correta e moral. E a educação, por sua vez, uma declaração da incompetência social das massas e uma aposta na ditadura do “professorado” (déspotas ilustrados), guardiões da razão, das boas maneiras e do bom gosto.
Não é de estranhar, portanto, que Bauman, naquele livro, tenha concebido a educação escolarizada como o conceito e a prática de uma sociedade amplamente administrada. Em um texto mais recente, publicado em A Sociedade Individualizada, o pensador retoma essa interpretação da educação escolarizada como fábrica da ordem, destinada à produção de corpos dóceis, disciplinados e eficientes, e a analisa levando em conta a “transição” da modernidade sólida à líquida (passagem outrora caracterizada pela oposição entre modernidade e pós-modernidade). A conclusão a que chega, pressuposta, porém não explicitada, em Legisladores, é que essa concepção da escola e da educação enfrenta uma grande crise desencadeada pela “falência” das instituições e da “filosofia” herdada da modernidade sólida.

A educação como um produto
 
Na segunda forma de abordar a educação, o autor desenvolve a tese de que, concebida para um mundo ordenado, em que tudo o que estava sólido se desmanchava no ar sob a promessa de estruturas ainda mais duráveis, a forma escolar moderno-sólida tinha em seu horizonte perspectivas de longa duração, baseadas em um processo educativo que, indiferente à novidade, ao acaso e à desordem, visava alimentar os aprendizes com uma educação para toda a vida. Nesse contexto, o conhecimento adquiria valor proporcional à sua duração e a escola tinha qualidade na medida em que fornecia esse saber de valor duradouro.
A educação escolarizada foi, assim, visua-lizada como uma atividade voltada para a entrega de um produto que poderia ser consumido hoje e sempre. Bauman compreende que, com a passagem da modernidade sólida à líquida, tanto a ordem imutável do mundo como a da “natureza humana” se encontram em apuros. Eram esses pressupostos que garantiam os benefícios da transmissão do conhecimento aos alunos e forneciam ao professor autoconfiança para “gravar” na cabeça daqueles a forma que presumia ser, para todo o sempre, justa, bela e boa – e, por isso, virtuosa e nobre.
Aprendemos com seu diagnóstico que esse tipo de ordem social imutável é tudo o que não temos na sociedade que fez da liquidez seu paradigma. Para o sociólogo, o “mundo do lado de fora” das escolas cresceu de modo diferente daquele para o qual elas estavam preparadas a educar. Assim, preparar para toda a vida adquire novo significado diante das atuais circunstâncias sociais. Ou, no mínimo, certa descrença em relação ao seu potencial aplicativo.
Em ambas as abordagens, todavia, a estratégia de Bauman é semelhante: tratar a educação a partir dos conceitos, categorias ou metáforas empregadas no seio de sua sociologia. O mesmo é verificado no tratamento que o autor confere a outros temas.
O potencial da sociologia de Bauman para pensar a educação no contemporâneo não se esgota no que o próprio autor escreveu sobre ela. Ao contrário, há em sua obra conceitos e/ou metáforas que podem ser utilizados (e têm sido) na perspectiva de se pensar a educação no contemporâneo. Não surpreende identificarmos, cada vez mais, referências a ele em congressos, dissertações, teses, seminários, artigos científicos etc. A ponto de seu nome já despontar entre as principais referências dos grupos ligados ao Grupo de Trabalho Currículo, da Associação Nacional de Pós-Graduação em Educação.
 

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Cadernos Zygmunt Bauman publica nova edição






 
O Periódico semestral Cadernos Zygmunt Bauman publicou nova edição, trazendo trabalhos que problematizam diferentes aspectos das ciências sociais, da filosofia e da educação.
Podem ser enviadas contribuições para a revista em qualquer período do ano, pois as submissões se encontram abertas em fluxo contínuo.
A edição atual pode ser conferida no link abaixo:

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

VÍDEO: Zygmunt Bauman e a Pós-modernidade.

Nesta palestra do filósofo Luis Felipe Pondé, da série "O diagnóstico de Zygmunt Bauman para a pós-modernidade", mais uma vez a tv cultura nos brinda com uma oportunidade de refletir e aprofundar os conceitos de Bauman.